"Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia em factos, a minha história sem vida. São as minhas confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer." [livro do desassossego. fernando pessoa]

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Amen


Pelo retrovisor enxergamos tudo ao contrário
Letras, lados, lestes
O relógio de pulso pula de uma mão para outra e na verdade...

NADA MUDA NADA MUDA NADA

A criança que me pediu dez centavos é um homem de idade no meu retrovisor
A menina debruçando favores toda suja
É mãe de filhos que não conhece
Vendeu-os por açúcar
Prendas de quermesse
A placa do carro da frente se inverte quando passo por ele
E nesse tráfego acelero o que posso
Acho que não ultrapasso e quando o faço nem noto
O farol fecha...
Outras flores e carros surgem em meu retrovisor

Retrovisor é passado

É de vez em quando... do meu lado

Nunca é na frente
É o segundo mais tarde... próximo... seguinte
É o que passou e muitas vezes ninguém viu
Retrovisor nos mostra o que ficou; o que partiu
O que agora só ficou no pensamento

Retrovisor é mesmice em dia de trânsito lento
Retrovisor mostra meus olhos com lembranças mal resolvidas

Mostra as ruas que escolhi... calçadas e avenidas
Deixa explícito que se vou pra frente
Coisas ficam para trás

A gente só nunca sabe...
...que coisas são essas