"Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia em factos, a minha história sem vida. São as minhas confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer." [livro do desassossego. fernando pessoa]

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

resenhando : Por uma teoria do espaço latino americana - Maria Laura Silveira


primeiramente: Maria Laura Silveira me abraça. :D Sério, vem aqui em casa tomar um chá e bolar uns planos de revoluçao comigo. 

bom, acabei de fazer uma resenha pra matéria "geografia regional" do texto que entitula o post e resolvi postar aqui. :)

Silveira, Maria Laura. ‘Por uma teoria do espaço latino-americano’”
In: Lemos, A.I.G. de; Silveira, M.L.; Arroyo, M. (orgs.) Questões Territoriais da América Latina. São Paulo/Buenos Aires: Clacso, 2006.

O texto analisa as estruturas contemporâneas das sociedades e as novas dinâmicas territoriais associadas à globalização e como a Geografia trabalha dentro dessa realidade, principalmente uma Geografia atenta para a América Latina; aponta a necessidade de se pensar numa teoria do espaço fundada na nossa própria história.
As principais idéias dentro do processo de globalização (principalmente dentro da América Latina) são então introduzidas, caracterizam nosso período; e aparece então a resposta para a seguinte pergunta: “globalizar para quem?”. A aceleração geral, as alterações das técnicas e como essas mudanças influenciam no território são aspectos importantes da globalização; ela cria uma valorização e desvalorização territorial e social, baseada e valorizando as grandes corporações e empresas inseridas no contexto da informatização e financeirização, nos mostra assim que o processo de globalização é necessário para quem comanda os processos sociais, mas é desnecessário para a maioria da sociedade (ou “os inconformados” como a autora coloca).
A autora claramente se baseia nas idéias de Milton Santos e coloca o sistema técnico científico informacional, baseado na tecnociência, como centro da sociedade contemporânea; defende que a - assim chamada – globalização que caracteriza nosso período se baseia em três tendências principais: a) a técnica da informação que permite uma simultaneidade e padronização nas formas de produzir, de circular e de gerir – e que conseqüentemente acirra a divisão de trabalho e resulta finalmente numa “dissociação territorial das etapas de produção”; b) a informação como a verdadeira energia que impregna a ação contemporânea, principalmente as informações geradas e difundidas verticalmente e que possuem um cunho globalizante no sentido de induzir a um pensamento único e padronizado; c) a “unicidade do motor”, ou seja, a “apropriação da mais-valia por um pequeno grupo de atores globais” que controlam as acelerações do período.
Um ponto de destaque dentro das análises propostas é o do totalitarismo do espaço contemporâneo – que Milton Santos se refere como “globalitarismo” – “baseado numa tirania da informação e do dinheiro”. Transvestido de tolerância, passa desapercebido e as atitudes que nos “obriga” a ter são tidas então como “naturais”, assim como os processos sociais que desencadeiam; totalitarismos contemporâneos (e assim suas conseqüências sociais) são fruto de escolhas políticas.  “Somos treinados, a cada dia, pela educação formal ou informal, para aceitar, exercitar, reproduzir e, tantas vezes, defender, esses totalitarismos” – passamos então a ver como “natural”: ter que apresentar uma série de dados pessoais (alimentando milhares de bancos de dados) para obter uma simples informação; sermos filmados e gravados a todo o momento (para a nossa própria segurança é claro). 
O controle, a vigilância, a fiscalização, são parte essencial do processo rumo a modernização e a segurança; sua aceitação ocorre naturalmente, porque sua inserção acontece dentro desse totalitarismo velado, dentro do frenezi da modernização e globalização. “Quanto mais moderno, mais vigiado” – inserindo aqui a realidade latino-americana de modernização pontual e grande número de “espaços opacos” (ou seja, espaços não inseridos nessa modernização), temos então uma visão de potencial revolucionário da região; como coloca Milton Santos, os espaços opacos são então os redutos de novas formas de solidariedade e organização regional e como já vimos sofrem com menos vigilância, opressora no sentido de que fiscaliza a inserção dentro dos padrões impostos pelo globalitarismo, e assim acabam “protegidos pela própria fraqueza”.
Baseada na tecnociência, a sociedade atual desenvolve cientificamente riscos, desconfianças e medo. O medo gera constante análise de riscos, que são enfrentados então com uma profusão imensa de contratos e seguros; o medo constante intensifica a intolerância pelo diferente e o medo gera individualização. A individualização então gera uma um aumento nas obrigações de escolha (mais um aspecto do totalitarismo padronizador), os indivíduos se vêem sob permanente interrogação sobre o futuro e questões como trabalho, família, moradia, se tornam muitas vezes um fardo.
De um lado temos um numero relativamente pequeno de grandes corporações que tomaram o lugar do Estado na prática e que acabaram por “privatizar a vida social e econômica das nações e, ainda mais, privatizar a própria política com um enxame de consultores e experts”. De outro “os inconformados”, aqueles que são a maioria, e aos quais muitas vezes a globalização trás somente conseqüências negativas. Uma citação importante nesse contexto é “chegamos a acumular regressões sociais sob pretexto de um futuro melhor” a de Lille e Verschave. (pp. 93)
Pessoalmente, percebo que assistimos então não só uma morte da política, com o controle das relações e dinâmicas estando nas mãos de algumas empresas, mas também à morte das liberdades de pensamento e ação individuais. A padronização imposta por esse chamado “globalitarismo” acompanhada do constante aumento de vigilância e controle só pode trazer conseqüências catastróficas; numa escala individual, ligadas inicialmente à aceitação de qualquer cenário como “natural” e numa transformação do ser humano comum em um simples instrumento de trabalho que age sob certos padrões - e numa escala de grupo, à estagnação de organização popular contra os processos de intensificação da desigualdade e exclusão social.
Observando a realidade da América latina e de seus inconformados, temos um histórico de conquistas sociais (mesmo que incompletas) que resultavam em direitos sociais; mas hoje, com o aumento das necessidades e exclusões sociais resultantes da seletividade de fluidez da globalização, percebemos como a “busca pela justiça socioespacial” tornou-se uma “segmentação socioespacial” que ainda é considerada legítima e natural.
Depois de colocar características importantes do período, a autora nos trás ao questionamento do lugar da Geografia dentro dessa realidade; como fica a nossa disciplina dentro dessa cada vez mais intensa “economia do pensamento”. Muitas questões são colocadas e no final chega-se a idéia de uma Geografia focada num “espaço de todos”, numa sociedade da repressão velada e do medo, que tenta matar a solidariedade e a tolerância, seria nosso trabalho
“(...) neste início de século, ensaiar uma teoria social do espaço geográfico, uma teoria do espaço latino-americano, que não poderá esquecer os conteúdos do território, hoje tão vinculados ao controle da vida e do dinheiro, nem a produção política de uma idéia de América Latina, na qual a justiça e a liberdade sejam nossas buscas permanentes.” (pp.99)

Um comentário:

-carol; disse...

vicentão irá sorrir, haha
:D